Crianças e meditação

Você acha que crianças devem aprender a meditar? A serem mais calmas, controladas, tranquilas e serenas?

Certa vez, uma mãe me procurou para dar aula de yoga para a criançada de 2, 5 e 7 anos, alegando que elas eram muito agitadas. Essa mulher linda, rica e bem–sucedida profissionalmente, ansiosa e inquieta não tinha tempo pros filhos – nem muita paciência. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: ‘quem está precisando de yoga é você’. Mas não disse isso.

Acabei aceitando a proposta, a um valor praticamente irrecusável. Não demorou mais que poucos meses para obter minha confirmação prática do que na teoria eu já sabia. Crianças refletem como espelhos a mente dos pais.

É comum para pais que já tiveram ou tem algum contato com a meditação e o yoga, achar que crianças devem aprender a meditar, já que depois de adulto tudo é muito mais difícil. O sentimento de tornar a vida dos pequenos mais fácil é nobre. Mas não é possível. Crianças são seres cheios de energia, naturalmente. Forçar mantê-las quietas não significa ensinar a controlar a mente.

A criança constrói a personalidade através da corporificação: do sentir, perceber, interagir e relacionar-se. De 2 a 7 anos a criança precisa de experiências que tragam algum sentido de identidade – suas capacidades, seus sentimentos, suas potencialidades. Dos 7 aos 11 anos ela ainda depende de algo concreto pra chegar a qualquer abstração. Imagine a confusão na cabeça dos pequenos ao dizer algo do tipo: “você não é o seu corpo, você não é seus pensamentos”.  Nesta fase, a criança precisa fortalecer o ego saudavelmente.

Você pode até começar a fazer yoga pra melhorar a flexibilidade, a concentração, a consciência corporal, ou qualquer outro motivo que te leve a ter uma vida mais saudável. Mas esses benefícios são apenas consequências. O Yoga é um sistema que possibilita a transcendência do eu, cujo fim é a fusão com a unidade, com a consciência cósmica. O autoconhecimento é que torna possível a purificação de aspectos da personalidade. É preciso de certa abstração e desenvolvimento cognitivo para conseguir elaborar esses conceitos.

Lembrando que alguns adultos que não passaram por esta fase de construção do ego, devem realizar um resgate. Um ego enfraquecido se beneficiará menos ao recorrer da abstração e da meditação, porque talvez a atividade aja como uma fuga da realidade, consequente da inabilidade de interação com o mundo de forma objetiva. Brinque, dance, explore novas possibilidades sensoriais, descubra suas potencialidades, com alegria, e só depois sente-se em meditação.

Crianças não “podem” meditar, mas podem ser estimuladas a permanecer no presente - esse estado é natural quando brincam. Claro que podem aprender a perceber a respiração e pensamentos, algumas posturas e pranaymas – mas só ficarão mais calmas, tranquilas e serenas ao movimentarem-se livremente, sentirem prazer nas relações sociais, na relação com a natureza e com o próprio corpo, ao serem devidamente alimentadas, cuidadas e amadas.

Oferecendo suporte com nossa atenção e presença, mantendo-nos inteiros ao brincarmos ou conversarmos com elas, diminuindo estímulos e principalmente, com nosso próprio exemplo, inspiramos nossas crianças a se tornarem futuros meditadores.

Que todas as crianças sejam felizes, que sejam nutridas de amor e presença, e que brinquem! Muito. (P.S: crianças de todas as idades)

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